"Tem a cara do avô"
No aniversário do meu avô materno, sobre a saudade do meu avô paterno
A história que vos vou contar hoje é sobre o primeiro dia da minha vida cujos detalhes tenho até hoje na memória. Esse dia aconteceu, no dia em que vos escrevo (8-05-2026), há 9 anos atrás.
A 8 de maio de 2017, eu estava ainda no nono ano. Tinha uma amiga na escola, a Inês, de quem sou amiga até hoje(que espero que leia isto). Odiava os meus dias e odiava a minha vida.
Antes de contar este dia, talvez faça sentido contar os meses que o antecederam. Na madrugada que trouxe o novo ano, a minha avó paterna partiu a bacia. Os meus avós viviam sozinhos e o meu avô enfrentava um cancro fulminante que o tinha transformado num velhote doente (antes o meu avô nem velhote era). A necessidade de novos cuidados populou a casa deles com novas presenças e levou à junção de todas as economias para se instalar uma cadeira que subisse as escadas (dois andares, os quartos em cima).
O caminho de janeiro a maio foi muito atribulado e profícuo em visitas ao hospital; o cancro abraçava todas as partes do corpo que podia e o meu avô ocupava cada vez menos da cama do hospital, como se o cancro lhe comesse bocados também por fora.
O meu avô paterno era também meu padrinho, talvez porque só tenho dois tios homens e dois irmãos já apadrinhados, mas gosto de acreditar que era por outra razão. Quando me cortaram para fora da barriga da minha mãe disseram-lhe com prontidão, “É a cara do avô António”. Somos próximos de quem tem a nossa cara.
Eu e o meu avô sempre fomos muito amigos, fazíamos chamadas muito longas ao telefone de casa; comíamos pudins de pacotinho no fim das refeições; dividíamos chocolates do armário privado. O meu avô tinha diabetes, nós dividíamos na mesma.
Um dia fiz-lhe uns totós no cabelo e rimos muito. Num outro dia fomos andar de carro em Cascais e no fim ele passou-me para as mãos uma fotografia pequenina dele - assinada com nome, data e idade.
Algures nesses dias deu-me um anel que achou que eu ia gostar, guardado dos tempos em que trabalhou numa ourivesaria. Numa noite, antes de voltar com os meus pais de um jantar (que ele acabava com cheirinho no café), deu-me um outro anel, o mais especial de todos, o selo do namoro com a minha avó. Uso ambos todos os dias, meu teu, dá para ler no de namoro.
Isto tudo foi bem antes do cancro lhe levar tudo, num passado paralelo. O meu avô não era velhote nem parecia avô. Lembro-me bem do dia em que estas coisas mudaram.
Os dias longos passados na casa dos meus avós deram lugar a dias muito longos no hospital. Eu ficava sozinha em casa nesses dias, o hospital não era lugar para duas pessoas com a mesma cara.
Maio chegou depressa e a única coisa marcada na agenda da Carolina de 15 anos era uma procissão a Fátima para ir ver o Papa (conversa para outro dia), mas, num domingo como qualquer outro, descobri que talvez este mês tivesse marcações para sempre.
Numa visita de fim de tarde ao meu avô, enganei-me a chegar à sua cama. Não conhecia as mãos de nenhum, nem via nenhuma cara como a minha. O cancro tinha comido as nossas parecenças e o que restava deste velhote dificilmente permitia ocupar espaço na cama. Fiquei muito assustada. Falámos do Papa, da Eurovisao e do Benfica (equipa de futebol do meu avô, de resto somos todos do Sporting). Não falámos na viagem para casa.
Na tarde, quase noite, de segunda, os médicos chamaram toda a família de volta ao hospital. Eu fiquei em casa sozinha para estudar para o teste de matemática do dia seguinte. Não houve teste no dia seguinte.
A uma hora que não me lembro, recebi uma chamada da minha mãe que consigo reproduzir até hoje na perfeição, “Estou, fifi! Olá! Então, como está a correr o estudo?….Pois, já agora, o avô morreu” (Uma nota sobre esta chamada: a minha mãe ficou completamente de rastos, apesar de ser alguém que lida extraordinariamente bem com a morte. Sabendo que eu estava sozinha e iria ficar igualmente de rastos, acho que tentou uma abordagem leve - hoje, às vezes, rio-me disto, e agradeço). Silêncio dos dois lados da linha. “A tia C diz que vai aí a casa para não ficares sozinha” (a minha tia vive a meia hora de nós e já estava na cama. Obrigada tia C).
A minha memória seguinte é de ficar muito quieta com a casa muito silenciosa. Depois contei à Inês.
A seguir fiquei muito quieta de novo, agora era só eu com a minha cara. No mundo inteiro.
Quando a minha tia chegou tentámos ver duas novelas e depois eu decidi que talvez fosse melhor dormir para acordar fora do pesadelo. Antes de dormir troquei mensagens com a minha irmã que tinha voado por cima da 25 de Abril e estava também no hospital. Algures antes de fechar os olhos falei com o meu irmão por chamada, ficámos os dois em silêncio.
Sei de cor todos os dias a seguir a este. Lembro-me do silêncio ao acordar e do silêncio no carro. Lembro-me da chegada à casa dos meus tios, onde no quarto a minha prima ainda tentava dormir. Quando lhe abri a porta, ela limitou-se a levantar as cobertas da cama para eu me juntar a ela. Fechei os olhos. Não dormi. Ficámos só esmagadas uma na outra no escuro a chorar em silêncio e para dentro. Durante este tempo, os adultos foram contar à minha avó.
Almoçámos frango na casa dos meus avós (riscar) da minha avó.
Sentámo-nos em silêncio na sala. Com 15 anos sentei-me no colo de uma outra tia e chorei - altíssima e pesada, sem caber naquele colo.
Subi e sentei-me na cama dos meus avós (riscar) da minha avó. Assim era gigante e parecíamos duas ervilhas incapazes de amarrotar os lençóis. Também não falámos.
Jantámos frango.
Só no dia seguinte velámos o corpo. A minha mãe estava doente e chovia muito. Empurrei a cadeira de rodas da minha avó até à capela, mas íamos todos em procissão, nós netos e eles filhos. Íamos todos muito engomados, apesar da chuva. Entrámos todos em fila. O meu irmão saiu imediatamente para chorar.
Depois saímos quase todos.
Neste dia conheci o agora marido da minha irmã que, infelizmente arrastado para estas negras circunstâncias, fez o que podia e não podia para aliviar o ambiente.
A uma determinada altura a capela encheu-se da minha família materna. O meu avô materno tinha feito anos na segunda, dia em que tinha partido o meu avô paterno. O avô materno não sabe até hoje que partilha a data com tão trágica memória (o meu avô materno faz anos hoje, 95. Como eu o amo).
A uma determinada hora obrigaram-nos a ir jantar. Mais frango.
O funeral foi no dia seguinte e veio toda a família do meu avô numa carrinha - de Santarém até ali. Vieram quase sem parar em nenhum sinal de STOP para chegar a tempo de velar o meu avô, seu irmão ou tio. Uma das irmãs do meu avô tinha (e tem) a cara dele, a nossa cara; cada segundo a olhar para ela era absolutamente horrível e reconfortante ao mesmo tempo. Abraçámos mais que olhámos, ela repetiu-me muitas vezes que eu agora não tinha avô e ela não tinha um irmão - o quê que seria de nós?.
O cemitério estava cheio de lama produzida pelos últimos dias de chuva. Eu vesti a única roupa preta que tinha e que tinha usado em todos os dias anteriores, umas jardineiras e umas botas que se afundaram no caminho até ao buraco final. Todos nos afundámos ali no final, em cima de lama ou não.
Nesse dia fomos para casa e não havia frango, fomos ao McDonald’s perto de casa e trouxemos hamburgueres e comemos em silêncio.
Nessa madrugada fui para a peregrinação que tinha contado e combinado ao meu avô. O Papa olhou diretamente para a minha cara e portanto olhou para a do meu avô também
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Pois é, em dias como estes, ficam-nos na memória pormenores que jamais fariam sentido noutro dia qualquer. Um abracinho. ❤
Lindo lindo lindo